quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Por que?


Por que?


Uma pergunta que me fiz muito e que naturalmente me bombardearam foi: por que? Por que ir para o Oriente Médio trabalhar com refugiados sem receber um centavo? Qual o sentido nisso tudo?
Bom, a resposta pode ser dada em dois níveis, envolve desde desejo profissional até o que eu creio que seja uma boa vida. Por isso, é bom separar em tópicos

1-) Anseio profissional
                Depois de me formar vem a famosa e necessária crise: o que eu vou fazer da vida? Essa é uma pergunta que pouco me preocupou durante a graduação, mas ao sair da faculdade já sabia que iria pagar caro por não ter me preocupado muito com o mercado. Fiz Unesp pensando me me preparar  para a vida. Creio que hoje sou uma pessoa muito mais ética e crítica em relação ao mundo. Mas ética e crítica não são valores muito apreciados pelo mercado profissional né. Ética e capacidade crítica não alimenta ninguém.  Então cheguei ao fim da graduação sem experiência profissional nenhuma.
                Tive que fazer uma cirurgia no joelho que me obrigou a ficar parado por vários meses. Foi nesse tempo em que decidi que iria tentar começar uma carreira na área que tinha interesse: Assistência Humanitária Internacional. Mais especificamente, trabalhar com refugiados de guerra. Tudo isso, devo ressaltar, por influência direta de um livro: O Homem que Queria Salvar o Mundo, na qual relata a vida de Sergio Vieira de Mello. Ler esse livro literalmente mudou minha vida e ativou um diabinho em mim que me dizia pra arranjar um trabalho onde seu produto produzisse diretamente uma sociedade melhor. E eu resolvi dar ouvidos a essa voz.

Uma vez decidido isso entrei em contato com a AIESEC e meses depois fui aceito para dar aulas para crianças refugiadas de guerra no Cairo.

A ideia é simples: Ainda que seja trabalho voluntário, essa é uma oportunidade única de pegar experiência na área. Minha ideia é fazer o melhor possível para meus chefes e assim, estabelecer uma boa relação com eles. Daí é fazer o máximo de contato possível e assim que acabar meu vínculo contratual já emendar com outra coisa, preferencialmente um trabalho com refugiados, e remunerado.  Serve em qualquer lugar do mundo, de preferência em algum país exótico. Mas tem que ter salário. Não dá mais para depender dos pais. Esses são meus últimos momentos de dependência financeira dos pais. Espero.

Se ao fim do intercâmbio eu não conseguir emendar nada, fim da brincadeira. Volto ao Brasil com uma baita experiência de vida e como diria uma amiga, vendo a alma para o mercado. Naturalmente, tudo isso acompanhado de uma baita frustração.  Daí volta a crise sobre o que vou fazer da minha vida.

2-) Filosofia de vida
                Esse campo diz respeito sobre o que eu acho que é uma vida boa, pelo menos durante a juventude. É uma concepção de vida que tento seguir e faz muito sentido para mim. Naturalmente, como toda ideia nesse nosso mundo volátil, ela é fraca, no sentido que posso mudar de ideia a qualquer momento. Contudo, mesmo assim, me esforço ao máximo através de leituras para, digamos, me ideologizar ao máximo, ou seja, estar sempre lendo e ouvindo pessoas com essa ideologia.

Afinal, qual é essa ideologia? Trata-se de abdicar dois aspectos fundamentais da nossa sociedade de consumo: estabilidade e felicidade. Acredito que essas são duas das ideologias mais adoradas pelas pessoas. O importante na vida é ser ter um emprego estável (em geral público) e buscar a felicidade, entendida pela capacidade de consumo. Há um dito velado em nossa sociedade que prega que quanto mais bens materiais consumimos, mais felizes somos. Contaram essa piada pra gente e acreditamos tanto nela a ponto de dedicar uma vida inteira em busca disso.

Na minha opinião uma vida boa é justamente aquela cheia de sobressaltos. Onde o inesperado e a perplexidade façam parte do cotidiano. É da perplexidade que nascem as reflexões, importantíssimas para a vida. E é do inesperado que surgem situações que nos tiram da zona de conforto e nos obrigam  a viver experiências diversas, quer queiramos ou não.

Obviamente, essa filosofia tem limites. Por exemplo, os sobressaltos não são interessantes quando ameaçam a  minha vida ou de outrem. Além disso, nada garante que eu veja o mundo assim para sempre. Talvez um dia eu canse disso e deixe de buscar sobressaltos na minha vida, digamos, “macro”. É bem capaz que dentro de uma vida aparentemente normal e estável eu procure as pequenas experiências que de alguma forma dê sentido a vida, ou seja, busque experiências no plano “micro”. Desculpem se não estou sendo claro o suficiente, é que esse negócio de micro e macro fazem muito sentido na minha cabeça.

Então, depois dessa breve e confusa explicação, escolhi dar aulas para refugiados de guerra pois busco através do contato com estes experiências de mundo diferente da minha e que de alguma forma aumente a minha compreensão de mundo. Compreender o mundo, taí uma coisa importante pra mim. Com certeza através do contato com eles e com a populacão egípcia local não faltará situações inesperadas e por isso, oportunidades de aprendizado.


Bom, hoje acabei de chegar no Cairo, apesar de ser 5 e meia da manhã e das 30 horas de viagem não consigo dormir. Maldito jetlag.  Sabe essa história de inesperado. Poizé, ao chegar no apartamento me deparei com uma. Já tirei umas fotos e em breve registro aqui. Uma última observação: mano, eram 5:15 da manha e estava completamente escuro. Cinco minutos depois amanheceu do nada! Com sol e tudo!

Até mais!